Com
os trabalhos da Comissão Nacional da Memória, Verdade e Justiça prestes a se
concluírem, o escritor Agassiz Almeida, com apoio das entidades defensoras dos
direitos humanos, encaminhou esta mensagem aos comandantes das Forças Armadas.
Quem eram aqueles resistentes
nascidos nos chãos da Latino-América? Carregavam a obsessão dos místicos, a
magia dos utópicos e o heroísmo dos revolucionários.
Para o encontro da verdade
com a História o que espera o povo brasileiro das suas Forças Armadas? Abram os
arquivos do terror e apontem os nomes daqueles que, à sombra do poder, se desandaram
em crimes monstruosos.
Quem nos julgará hoje e amanhã, comandantes? A História. Instituições e
homens carregam erros e deformidades. O que objetiva o povo brasileiro, por
meio da Comissão Nacional da Memória, Verdade e Justiça? Conhecer os acontecimentos
daquele período sombrio (1964/85), em que circunstâncias se desfecharam e os
nomes dos personagens. Em todos os tempos, o homem sempre lutou contra a besta
humana. Certos tipos carregam um Roubaud (personagem de “A besta humana”, de
Émile Zola).
Olhemos os militares
sul-americanos a partir do século XIX, especialmente o exército e a marinha do
Brasil. O caudilhismo, sob o bafejo de um militarismo cego, despedaçou os
ideais de Simón Bolívar, e retaliou a América hispânica em várias
republiquetas. Numa grandeza de patriotismo as forças do exército e da marinha
do país defenderam a unidade da nacionalidade com a salvaguarda da vastidão do
território pátrio.
Em traços rápidos,
conceituemos o exército do país cuja postura se firmou naquela e nestas passagens
históricas: não se fez capitão do mato de escravos fugitivos, no martirológio
dos 18 do Forte de Copacabana, na Revolução de 30, na Força Expansionista
contra o nazismo nos chãos da Itália, não se atrelou à ambição norte-americana
nas guerras da Coreia e do Vietnam.
Projetemos esta instituição
armada nos anos de 1964 e nos dias atuais. Que contraste face àqueles momentos
históricos. Embasado num fantasmagórico anticomunismo golpeou o regime
democrático em 64 e implantou uma cruel ditadura por 21 anos. A partir de 1970,
sob o tacão do ditador Médici uma diretriz estatal abominável adotou-se por
estratégia do Pentágono e com alcance em toda a América Latina:
institucionalizaram a tortura e o desaparecimento dos mortos. Sinistras
ditaduras desabaram sobre os povos latino-americanos que iriam conhecer as suas
noites de São Bartolomeu e de Auschwitz.
Rasgue-se o manto debaixo do
qual se obscurece a verdade.
O Brasil fez-se signatário de
tratados e convenções em defesa dos direitos humanos e projeta-se “tempora ad temporam”. Nós somos
apenas meros passageiros do carrilhão da vida.
Comandantes, engrandeçam a
nossa história com o gesto das desculpas à nação brasileira! Que dimensão
patriótica nesta atitude! Constantino, imperador romano do século IV,
desculpou-se pelas atrocidades contra os cristãos; Napoleão, vencedor de
memoráveis batalhas, desculpou-se pelo massacre de Lyon, na França, comandado
por Fouché; Brasil e EUA se desculparam perante os povos africanos pelas
infâmias da escravidão; o papa Bento XVI se desculpou ante o mundo pelos crimes
de pedofilia praticados por sacerdotes da Igreja Católica.
O gesto das desculpas encerra
duas grandezas: o magnânimo em reconhecer a energia e a coragem dos intimoratos
compatriotas que resistiram à ditadura e ao poder das armas, e sob outro
aspecto, uma visão superior e compreensiva do mundo.
Apequena-se quem desconhece
os instantes da história como estes: o heroísmo dos 300 combatentes das
Termópilas há mais de 2.000 anos; o martirológio juvenil dos imolados do
Araguaia, o destemor épico daqueles que lutaram contra as ditaduras. Mais grave
do que o crime é o silêncio, debaixo do qual se encobrem os criminosos; a ambos
transcende este fato: negar ao povo brasileiro o direito de conhecer como os
delitos ocorreram e os nomes dos personagens que os praticaram.
Encerre-se esta mensagem, e
que estas palavras ecoem na consciência da nação.
Comandantes, cesse tudo o que
um dia eclodiu em ódio e resistência, erga-se o gesto que dimensiona esta
grandeza, sob o signo pax ad infinitum: PEÇAM DESCULPAS À NAÇÃO BRASILEIRA.
Saudações histórico-democráticas
Agassiz Almeida
Obs.
Agassiz Almeida é escritor, ativista dos direitos humanos, como deputado
federal constituinte apresentou emendas entre as quais a que cria o Ministério
da Defesa e tipifica a tortura como crime de lesa-humanidade. Autor de obras
clássicas sobre o elitismo e o militarismo. É considerado pela crítica como um
dos grandes ensaístas do país. (Dados
colhidos no Wikipédia).
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