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17 de dez de 2007

Ingrid está no Brasil?

Numa operação secreta, o Exército tentou localizar, em território brasileiro, a ex-senadora colombiana, mantida refém pelas Farc desde 2002
O acanhado aeroporto de são Gabriel da Cachoeira, encravado em plena selva, no Amazonas, estava preparado para receber um avião de grande porte. Os funcionários civis de plantão na pista sabiam apenas que o avião transportava homens do Exército. Nada mais. Quando o Hércules C-130 tocou o chão já era o fim da tarde de 3 de julho deste ano. Os militares desembarcaram e seguiram para lugar incerto. Era o início de uma operação secreta. Os militares foram deslocados de Goiânia, sede da Brigada de Operações Especiais, a tropa de elite do Exército brasileiro. Sua missão: vasculhar um trecho de 60 quilômetros de floresta à procura de reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, em supostos acampamentos mantidos pela guerrilha colombiana no território brasileiro. As buscas se concentraram na região entre a Serra do Caparro e a Serra do Macaco (leia o mapa), no extremo norte do país. Entre as reféns, estaria a ex-senadora colombiana Ingrid Betancourt, seqüestrada pelas Farc em fevereiro de 2002, quando era candidata à Presidência da Colômbia pelo Partido Verde. De lá para cá, Ingrid é mantida em cativeiro.
Como Ingrid é a mais célebre dos cerca de 3 mil reféns mantidos pelas Farc, sua libertação é uma questão internacional. Em negociações com as Farc, já se envolveram os governos da Colômbia, da Venezuela e da França. Filha de um ex-ministro da Educação colombiano, Ingrid foi casada com um diplomata francês, com o qual teve um casal de filhos. Ela tem também cidadania francesa, e sua libertação foi uma das promessas de campanha do presidente da França, Nicolas Sarkozy. O governo brasileiro pode ser o próximo mediador. Na semana passada, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, teve uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Buenos Aires, durante a posse da presidente da Argentina, Cristina Kirchner. No encontro, foi discutida a possibilidade de Lula vir a participar das negociações com as Farc. “Se um dia o Uribe convocar o Brasil para fazer algum tipo de gestão, o Brasil estará disposto a fazer gestão”, disse o presidente Lula a ÉPOCA
A operação de julho do Exército brasileiro foi deflagrada a partir de uma informação transmitida pelo Exército colombiano. Um mapa com três coordenadas geográficas – a indicação do suposto esconderijo do cativeiro de Ingrid e de outros reféns – foi entregue pelos militares colombianos, acompanhado de um pedido para que o Exército brasileiro tomasse providências. Na área indicada pelos colombianos, a 2a Brigada de Infantaria de Selva do Exército, baseada em São Gabriel de Cachoeira, fez as buscas.“Foi uma operação sigilosa”, disse a ÉPOCA o general Antônio Hamilton Martins Mourão, o comandante da brigada e um dos coordenadores da operação. No dia seguinte ao desembarque em São Gabriel da Cachoeira, os homens da força especial do Exército foram deslocados até a região entre a Serra do Caparro e a Serra do Macaco. Estavam armados para o combate, com fuzis AR-15, pistolas e lança-granadas.
A região onde foram feitas as buscas é atrativa para as Farc, por não ser vigiada pelos Exércitos do Brasil e da Colômbia
Uma parte do efetivo seguiu num helicóptero Blackhawk. A outra varou rios e igarapés em voadeiras, botes de alumínio equipados com motor de popa, que facilitam a locomoção pela selva amazônica. O grupo destacado para subir pelos rios navegou apenas à noite para não chamar a atenção das comunidades ribeirinhas e garantir o fator surpresa da operação. Os outros militares, que foram pelo ar, desembarcaram em um ponto afastado daqueles informados pelos colombianos e seguiram o restante do trecho a pé. Montaram bases na floresta. A partir delas, fizeram patrulhas diárias entre as duas serras. Foram 15 dias na mata fechada. O Exército afirma não ter encontrado sinais da existência de acampamentos das Farc na região. Oficialmente, os militares brasileiros no comando das unidades na região dizem também não acreditar na possibilidade de que os reféns estejam em território brasileiro. Mas, em conversas reservadas, eles não descartam a hipótese. No trecho da selva brasileira onde foram feitas as buscas para tentar localizar Ingrid, a vigilância por parte do Exército foi redobrada.
Esconder os reféns em cativeiros localizados além das fronteiras da Colômbia seria uma forma de as Farc dificultarem eventuais ações de resgate por parte do Exército colombiano. “A pressão que fazemos sobre as Farc dentro de nosso território tem feito com que a guerrilha se movimente na direção dos países vizinhos”, afirma o coronel José Alberto Paez Ladino, do Exército colombiano, responsável pelos contatos com o Exército brasileiro. “Não acredito que esses reféns estejam do lado brasileiro, mas acho que podem estar, sim, próximos da nossa fronteira”, diz o general Mourão. No sul e no leste da Colômbia, em regiões de fronteira com o Brasil e a Venezuela, estão concentradas algumas das principais frentes das Farc. São grandes áreas de floresta fechada onde é difícil saber em que país se está – se no Brasil, na Venezuela ou na própria Colômbia.
A região entre a Serra do Caparro e a Serra do Macaco é área de atuação da Frente 16 das Farc, encarregada, segundo o governo da Colômbia, de controlar o narcotráfico, a aquisição de armas e munições e as finanças da guerrilha. A região é inóspita. Do lado de lá e de cá, há espaço para atuação da guerrilha sem grandes problemas. Nem Brasil nem Colômbia têm postos militares fixos por perto. A unidade do Exército brasileiro mais próxima da fronteira da Serra do Macaco é o pelotão de Cucuí, no Amazonas, distante 120 quilômetros, em linha reta. Do lado brasileiro, o sinal mais aparente de civilização é uma pista de pouso, construída nos anos 80 pela Paranapanema, que passou a ser usada mais tarde pelo narcotráfico e pela guerrilha. A pista foi destruída em 2003 pela Aeronáutica e pela Polícia Federal. Do lado colombiano, o movimento da guerrilha é intenso. A 4 quilômetros da linha de fronteira, há uma pista de pouso em franca operação. Depois da operação secreta de julho, o Exército brasileiro já voltou à área duas vezes. A última delas ocorreu em novembro passado.
Fonte: Época

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